Em Rota – Parado à espera de visto para Angola

Em Rota – 14º Relato – Parado à espera de visto para Angola

A manhã de hoje, dia 7 de Junho, que se vai tornar no ponto de viragem desta viagem, trouxe-me ao acordar, pela primeira vez desde que a iniciei, a ideia da passagem de fronteira em Moçambique. Espero que seja um bom presságio.

Dou alguma importância a estes pequenos sinais, e assim os interpreto, como prenúncio de algo bom. Mas não querendo ser demasiado optimista, uma outra situação muito curiosa aconteceu ontem, à chegada a Kinshasa. Seguindo as indicações de um elemento da polícia de trânsito, lá cheguei ao grand boulevard onde estão, entre outras instituições internacionais, as embaixadas. Dada a hora a maior parte delas já não tinha a bandeira hasteada. E assim fui, muito lentamente, ao longo da avenida, mesmo à borda do passeio, procurando algo que me indicasse a de Angola. E, então, aconteceu que um transeunte, me chamou à atenção dizendo-me algo e fazendo sinal para uma das vivendas…. Abri o vidro e pedi-lhe para repetir, e ele disse-me : a Embaixada de Angola é esta aqui. Ao que lhe perguntei como é que sabia qual a que eu procurava. Respondeu-me com um sorriso: … então, é a bandeira que se segue na sua viagem. Fico comovido ao relembrar isto. Mas deve ser do estado nervoso em que me encontro.

Bom. Vou parar de escrever. São quase 0900h, hora de abertura dos serviços consulares. A hora aproxima-se. Se não conseguir o visto hoje, vou directamente às embaixadas de Moçambique ou Portugal pedir ajuda. Eu tenho de entrar em Angola. Aliás, não tenho opção.

São 17 horas e muito aconteceu desde que escrevi o parágrafo anterior. Fui à Embaixada de Angola (EA), serviços consulares, para solicitar o visto de entrada. O processo burocrático pede um impresso preenchido, duas fotografias, fotocópia do passaporte, fotocópia de todos os vistos até aqui chegar, fotocópia do carnet internacional de vacinas com a febre-amarela, uma carta do Embaixador Português a confirmar o meu pedido, e uma carta manuscrita por mim, dirigida ao Sr. Cônsul de Angola, em Kinshasa, solicitando o visto. E um prazo de 15 dias.

Dirigi-me à Embaixada Portuguesa (EP), aonde fui recebido nos serviços consulares, e a quem expliquei ao que ia. Feitas as fotocópias, escritas as cartas, voltei à Embaixada Angolana. Receberam o dossier, e registando no impresso do pedido o meu número de telefone, disseram-me que aguardasse que dentro de algum tempo, dependia de Luanda, me contactariam. Naturalmente voltei à EP para lhes pedir ajuda. Foi apresentado o caso ao Sr. Embaixador, Dr. João Perestrelo, que teve a amabilidade de vir pessoalmente aos serviços consulares me cumprimentar e dizer-me que iria interceder junto da embaixada angolana sobre o meu pedido. Passado algum tempo, fui informado que, amanhã, dia 8, tenho uma entrevista com a secretária do embaixador angolano, a quem foi já apresentado o meu pedido. Devo ainda referir a simpatia e ajuda de Ana Lopes e Sílvia Cruz dos serviços consulares na preparação do processo de pedido de visto.

Mais um dia, nesta cidade. Que maçada, para não dizer pior…., que ficava feio aqui no meio desta escrita toda. Desculpem-me só a ideia.

Quero ir-me embora daqui. Deve ser o país mais corrupto do mundo, uma das cidades mais perigosas. E toda a gente pede dinheiro. Como é possível a economia de um país funcionar se, numa pequena rua, bem perto das embaixadas portuguesa e americana, há indivíduos, uns 4 ou 5, sentados, – olha querias que estivessem de pé, não ??? – ao lado de bagageiras – perdão, das malas – de carros, abertas, e lá dentro há pilhas, montes e montes de Francos Congoleses e Dólares Americanos, aos maços, enormes…. Como é possível??

Mas algo mais me despertou a curiosidade. Andam uns miúdos com uma espécie caixinha de madeira, sem tampa, e produzem com ela, um som. Uma batida. Olhei mais de perto. Resulta das pancadinhas que lhe dão no interior com uma pequena escova de engraxar sapatos. Então, a tal caixinha serve de apoio para o sapato enquanto é engraxado. O lustro final não é dado com pano mas sim com um pouco de espuma. Custa 150 Francos Congoleses; 900 é equivalente a um dólar…… é só fazer as contas, como dizia alguém. Já experimentei. Ficaram bem. Não dá para me ver ao espelho e me pentear, mas também não preciso. Pfff estão verdes, lá dizia a raposa. Tenho circulado hoje ao longo de uma grande avenida com 3 faixas de rodagem para cada lado – e um separador central pintado no chão, com dois traços contínuos e uma distância de meio metro entre eles. Pois. Não serve para nada. Nem para delimitar os que vão e os que vêm. Um dos que vem pode muito bem passar por cima dessa pintura, e seguir um destino oblíquo ao trânsito que, entretanto, com umas buzinadelas, tenta evitar a colisão. Comentei, aqui no hotel, com um casal brasileiro, que está “tentando” negociar produtos alimentares, sobre a forma caótica como se conduz nesta terra. Contaram-me que o actual Presidente da Câmara quando foi empossado, tentou criar alguma ordem no trânsito. E então, fez promulgar uma lei que permitia à Polícia não autuar, mas sim, dar umas vergastadas nos infractores. Mandava parar o carro face a uma infracção. Condutor fora da viatura, umas vergastadas e está a andar. Durante dois meses ninguém queria acreditar como, afinal, todos, duma maneira geral, conduziam de acordo com as leis de trânsito. Ora bem. Porque voltou o caos actual? Porque um grupo de cidadãos europeus considerou o método desadequado aos tempos modernos em que vivemos, que o tempo da chibata já tinha terminado, criou um movimento de salvaguarda dos direitos dos cidadãos … bla´blá e a lei caiu por terra. Voltou o caos.

Quanto ao negócio, dizem os brasileiros, que a corrupção é a tal nível que pensam desistir. Os pedidos de dinheiro “por fora” são desde o mais alto nível até ao funcionário que trata de uns papéis de pouca importância. Um país assim como uma classe dirigente corrupta não me parece que tenha futuro. Essas cúpulas vão continuar a estar presentes nos simpósios internacionais sobre isto e aquilo, fazer as fotografias de família no fim dos trabalhos, todos muito sorridentes e gordinhos, vão regressar aos seus países e cá tudo continuará numa descida inexorável para um abismo.

Mesmo circulando aqui pela avenida principal, é fácil ver que, por exemplo, os prédios, de uma maneira geral, já precisam todos de uma boa pintura, alguns já há uns bons anos. Tudo se vai degradando, lentamente, sem qualquer processo de recuperação. E, aparentemente, ninguém se preocupa com isso. Vivem cerca de 10 milhões de pessoas nesta cidade e arredores. A vida desses milhões, na sua grande maioria, julgo que é a de uma constante luta pela sobrevivência. Aspecto exterior dos prédios? Who cares….. !!!! Como estarão os seus interiores? Um outro exemplo, aqui do hotel onde estou instalado. Tem uma cabine de duche, mas, mas o parafuso que suporta a peça que segura o chuveiro já não está lá. Logo o chuveiro, quando não em utilização fica para ali caído num sítio qualquer. Claro que essas quedas já provocaram moças no plástico por onde se virá a partir. Só por causa da falta de um parafuso. Que ninguém recolocará. Pensei aqui verificar da situação da suspensão da frente do carro. Nem pense, aproveitam para lhe roubar peças ou trocar por outras avariadas. Tenho a noção que não é andando por algumas das ruas de uma cidade e reparando em pequenos detalhes de somenos importância que nos podemos aperceber de como um país reage aos desafios que tem pela frente, o que está a ser preparado para as gerações futuras, mas fico com a ideia que daqui a vinte ou trinta anos tudo estará pior. Muito pior. Neste negativismo vou-me deitar na esperança de um dia melhor amanhã, para todos. Afinal vou-me deitar com esperança. Antes assim.

Bom dia. Hoje é dia 8.

Aqui há dias alguém me perguntava… está tudo a correr conforme planeado?
Eu respondi: Sim, os países têm se apresentado pela ordem esperada…..

Chegada às nove horas aos serviços consulares de Angola.

Estou dentro do recinto murado da embaixada de Angola. Sinto-me cansado. A noite foi mal dormida, com um despertar demasiado cedo para começar a me atormentar com as dificuldades que hoje tenho pela frente. Para já a obtenção do visto. Mas para isso aqui estou à espera que à hora marcada, seja recebido pela secretária do embaixador. Depois, se o visto me for entregue, volto ao coração das trevas desta cidade – até já não quero escrever o nome – e levantar dinheiro num ATM para poder continuar a encher depósitos de gasóleo e fazer quilómetros até ao meu destino final. Fizeram-me sugestões de percurso em Angola para poder apreciar algumas das belezas naturais do país. Mas, neste momento, até já me desinteressa tirar fotografias. Começa a ser mais do mesmo. Com a desvantagem acrescida de a cobertura vegetal das terras envolventes da estrada ter o aspecto desgraçado daquilo que terá sido uma floresta. Agora é quase improdutivo terreno, de ocasionais culturas de subsistência com umas palmeiras aqui e uns bambus acolá, mais umas quantas árvores que sobreviveram à voragem das queimadas e desbaste para lenha. É triste rever esse panorama.

O espaço, aonde estou concretamente, é o grande alpendre duma casa dos anos 50, aí com uns vinte por trinta metros, com vários sofás. É uma espécie de sala de espera. Há ao fundo, um grande fogão para carvão, e respectivos apoios. Reparo ainda que há um balcão de madeira envernizada com umas portadas de madeira; aí se refrescarão os convivas de reuniões sociais que aqui acontecerão. Tentei sentar-me mais confortavelmente. Mas as costas são demasiado inclinadas, ficava quase deitado… Na parede, por cima de um pequeno balcão, por detrás do qual se resguarda uma funcionária, está uma fotografia do presidente Dos Santos, aí com menos uns 20 anos, e com um sorriso não sei para quem. Mas, por certo, para alguns. Corre uma aragem agradável e há pássaros que chilreiam nas árvores do jardim.

Às dez e um quarto sou informado que a secretária não virá trabalhar. Peço que lhe liguem. Transmitem-me a mensagem que já tratou de tudo e posso ir buscar o visto na Sexta, dia 10. Logo de manhã. E que posso dar-me por muito satisfeito, não fosse a intervenção da embaixada portuguesa o despacho levaria 11 a 15 dias. Levará 3 dias, portanto…..

Mais uma vez os meus agradecimentos ao Sr. Embaixador de Portugal, Dr. João Perestrelo.

Não podia ser pior a cidade para esperar por um visto mais dois dias. É medonha. Mas,

“Never let your fears stand in the way of your Dreams”

Rui Casimiro