Em Rota – Afinal não entrei no Zimbabwe

Em Rota – 17 º Relato

(15/6) Afinal não entrei no Zimbabwe. As fronteiras fecham às 18h00 neste país. E eu fiz contas para chegar às cinco da tarde. E cheguei. Só que ainda estava na hora de Angola. Desde ontem que estou uma hora atrasado. De facto, estranhei a azáfama do pessoal após a refeição da noite de ontem em arrumar tudo… tão cedo. Para mim eram oito e vinte da noite…

Atestei o carro para o dia seguinte e procurei onde passar a noite. Dei com um “lodge” muito diferente do habitual porque as suas cabanas, ou bungalows, assentavam em estacas!? Confortáveis casinhas quase de brincar, onde passei uma noite descansada.

“Click” nas miniaturas para abrir e ampliar as fotos (800pixel)..!  {gallery}viagem/17/01{/gallery}(16/6) Cedo rumei, finalmente com as horas certas, à fronteira. Formalidades ainda mais rápidas que na entrada e atravessei a ponte do rio Chokoé para entrar no Botswana. Aqui deram uma olhadela ao passaporte, fizeram uns registos no PC que tinham à frente, uma carimbadela a vermelho com uma data no passaporte e desejo de boa viagem. AHH à entrada, “bem-vindo ao Botswana…“… taxa de importação temporária da viatura, não tinha moeda local para honrar o compromisso… “não faz mal, pagas à saída…. “.

E lá entrei neste novo país. Separavam-me uns 50 a 60kms da cidade de Kasane. E pelo caminho, mais umas rectas onde tive o privilégio de ver, 2 girafas, 4 palancas, 1 gazela, muitas zebras, muitos babuínos, um búfalo e um elefante solitário. Afinal não sou só eu que ando sozinho…{gallery}viagem/17/02{/gallery}Chegada a Kasane, onde levantei dinheiro. Moeda local o Pula. Um salto a um ciber café para ver se estava tudo bem. Deparei com um restaurante indiano e decidi que hoje almoçava de garfo. Mistura de comidas indianas e chinesas, mas resultado final bom. No fim, um retemperante e digestivo chá. De volta à estrada para fazer os quilómetros que me separavam do Zimbabwe. Ainda na cidade de Kasane vi muitos 4×4 transformados para levar pessoas em confortáveis bancos na traseira da viatura com o pormenor de a altura dos bancos ir progressivamente aumentando para trás. Assim não há cabeças na frente quando for para ver um elefante, por exemplo.

Ao aproximar-me das cancelas da fronteira passou por mim um desses jipes e os turistas fizeram grande alarido!?!?!? Gente simpática, pensei eu, e bem disposta também. A surpresa estava reservada para quando entrei no parque de estacionamento e os tais turistas vieram ter comigo. Isso mesmo. Eram portugueses. Alguns de Portugal, outros de Moçambique, alguns destes naturais daquela bela terra – “de onde vem?”… “para onde vai?”, surpresa geral. Umas caras bem conhecidas no grupo, Prof. Vital Moreira, e o Dr. António Correia de Campos, representantes de Portugal no Parlamento Europeu. Como o destino era o mesmo, VicFalls, convidaram-me para jantar. As formalidades de fronteira demoraram mais do que era habitual….e os preços também: 30 USD pelo visto e mais 70 pela importação temporária da viatura.

Procurei alojamento o mais depressa que pude e apresentei-me no local combinado para o jantar, um tanto atrasado pela demora na fronteira com que ninguém estava a contar. Grupo simpatiquíssimo. Convidado de honra, assim me designaram, por gentileza. Uma saúde no início ao grupo e ao viajante solitário. Veja-se a coincidência… o grupo tinha sido baptizado com o nome “embondeiro”. E porquê?! Numa das viagens anteriores que fizeram, estiveram no Senegal e por cada embondeiro que passavam, o guia tinha de parar para as fotografias da praxe. E, então, foi o próprio guia que deu o nome ao grupo, depois de tanta paragem ao pé dessas árvores. {gallery}viagem/17/03{/gallery}Peripécias contadas no decorrer de um agradável jantar nos jardins do Hotel Victoria Falls, mais concretamente no “jungle junction”. Foram abordadas perspectivas para um hipotético futuro em Moçambique, além do incitamento, por parte de Vital Moreira, corroborado por todo o grupo para escrever o livro sobre a viagem.

Conhecedor profundo de Moçambique, António Almeida Bastos, Administrador do MOZA BANCO, forneceu-me algumas indicações, no sentido de alterar o itinerário para a entrada em Moçambique. Poderão ser mais quilómetros mas tem a vantagem de ser tudo asfaltado. Vou daqui a Bulawayo, Fort Victoria, Mutare e entro pela fronteira de Manica. Depois é subir rumo a Quelimane.

Hoje de manhã (17/6), também por indicação de António Bastos, levei o jipe a uma oficina – mais uma vez a sorte esteve presente – da única marca que tem um representante em VicFalls: a Toyota. Ora bem… suspensão da frente recolocada no sítio, lavagem geral do carro, limpeza interior, verificação dos níveis de óleo e uns apertos na direcção… está pronto para voltar à estrada.

Enquanto isto se processava fui visitar as cataratas, consideradas as mais bonitas do mundo. Os nativos chamaram-lhe “Mosi-Oa-Tunya”, ou “o fumo que troveja”. O nome actual deve-se a Livingstone, na sua progressão rio abaixo numa canoa, em 1854. Foi o primeiro homem branco a vê-las, e o deslumbramento foi tal que decidiu homenagear a sua rainha – a Rainha Vitória.

Aluguei à entrada uma “rain coat” por 3 USD, mais 20 USD pelo acesso ao parque e ainda comprei um chapéu para lá colocar o “spot” e assim poderem seguir-me ao longo do Zambeze.

Espectáculo inesquecível, ver todas aquelas toneladas de água em queda livre num precipício de mais de 90 metros de altura em alguns locais. Nesta altura do ano o caudal do rio é enorme, o que torna as cataratas mais espectaculares. Logo no início deparamo-nos com a “catarata do diabo”. O ruído é constante. Da vila, que dista uns 2 a 3 quilómetros das quedas, é possível à noite, ouvir o rugido da água a cair. E a chuva que a queda de água provoca, uma delícia… por vezes chove de baixo para cima. Não posso deixar de referir o efeito que o sol faz naquela imensa nuvem aquosa, que se manifesta em espectaculares arco-íris.

Fui depois ver de perto a ponte de ferro sobre o Zambeze, que separa o Zimbabwe da Zâmbia, com o seu grande arco. Permite a ligação entre os dois países, a pé, por automóvel e por caminho-de-ferro. Desta ponte é também possível fazer o desporto radical designado por “bungee jumping”, que consiste em saltar para o vazio amarrado pelos tornozelos a uma corda elástica…. É muita adrenalina!!

Amanhã, dia 18 de Junho, regresso à estrada, aos quilómetros, às paisagens, às gentes, às pequenas e grandes vilas, ao buliço das cidades, às conversas pontuais com o homem da bomba de gasóleo, ou com polícia na estrada que manda parar e com um sorriso pergunta como está a correr o meu dia… e depois dá ordem para avançar sem pedir todos os documentos de que se lembra como fazem nos países francófonos….. Penso, numa abordagem muito superficial, que poderia viver perfeitamente na Namíbia, Botswana ou Zimbabwe. Agora, nos outros, nem por hipótese académica. Ou então, não tive a capacidade de apreciar, vislumbrar, encontrar aquilo que de positivo aqueles países têm. “My inability…. my friend RPeS”.

Até amanhã, algures no Zim.

Rui Casimiro