Finalmente Quelimane

Estou perante uma situação algo complicada.

Como é do vosso conhecimento, uma das ideias subjacentes ao meu projecto de fazer a viagem por estrada entre Portugal e Moçambique, era trazer alguma ajuda para aquela que foi a minha escola primária, aqui, na cidade de Quelimane.{gallery}viagem/20/01{/gallery}A imagem que, correntemente, encontrava da escola na net, era a da frontaria de um edifício com uma pintura algo desbotada. Nada mais do que isso. Mais tarde, encontrei num blog outras imagens, ditas do seu interior, e que me mostravam, salas de aula vazias, paredes quase sem pintura, chão de cimento liso, a maior parte das janelas sem vidros e aquelas que ainda tinham redes mosquiteiras, estas apresentavam enormes rasgos. O mobiliário escolar (até me parece despropositado o termo) não existia. Não havia cadeiras, mesas ou carteiras. Não havia cadeira nem mesa do professor. Os grandes quadros negros estavam cinzentos de anos de pó de giz, sem sequer uma letra ou um número escritos.

Pensei na altura, que aquelas imagens não deveriam pertencer à escola de Quelimane, tanto mais que tinha já estabelecido contactos com a sua directora telefonicamente, informando-a da minha intenção, que ela recebeu com bastante agrado, e nada indiciava que a escola estaria naquelas condições… portanto, aquelas imagens deveriam pertencer a uma escola qualquer, numa cidade qualquer e que estaria simplesmente abandonada.

Mas…. afinal não! Ontem, dia da minha chegada a Quelimane pude comprovar com os meus olhos que as imagens correspondiam exactamente à minha antiga escola… uma escola que está em funcionamento. Os alunos sentam-se no chão e é aí que escrevem e colocam os livros.

Verifiquei outro pormenor importante… a instalação eléctrica… não existe. Já existiu. Estão lá nas paredes e tectos… velhas lembranças. Acompanhado pela actual Directora da Escola deambulei pelos corredores, recordei a minha sala de aula e o local onde, a meio da manhã nos era dado um sumo de laranja, para acompanhar o lanche que se trazia de casa. Era por volta das dez horas – o chamado “intervalo grande”. E então eu aproveitava, dava metade do pão com queijo ao único detentor, na altura, de uma bicicleta, e aí eu… dar umas voltas pelo recreio.

O meu amigo era de origem indiana e mais tarde vim a saber que os nossos pais se conheciam e a história foi falada entre eles. E aqui o vosso Rui Filipe, no Natal da 4ª classe, recebeu uma “ginga”, desculpem uma bicicleta, uma Humber, preta e com os travões em metal cromado. Que deslumbre e felicidade para mim…

Mas voltemos à crua realidade dos dias de hoje. Então, amanhã, quando entregar os Magalhães, à Directora da Escola, na presença do Director Provincial para a Educação e Desporto, e – creio que também estará envolvido nesta recepção – o Governador-geral da Província da Zambézia… vão fazer o quê com os “laptops”? Estou muito desanimado com esta realidade e estou sem saber o que fazer, pois custa-me acreditar que este material alguma vez venha a estar ao serviço das crianças, dada a total falta de condições na escola. E pensar que encetei diligências com uma escola EB1 de Portimão, para pôr os alunos em contacto via internet… grande desilusão!

Amanhã dar-vos-ei mais desenvolvimentos… mas vou exigir garantias de que os “Magalhães” não irão parar a mãos pouco miúdas… se não puderem ficar nesta escola, terão de me arranjar uma que reúna as condições mínimas necessárias para que os alunos possam usufruir deste material.

Voltando ao meu regresso à cidade de Quelimane onde cheguei pela primeira vez em 1953. Aqui fiz a instrução primária, e o 1º período do 1º ano do liceu. Estava “diferente”.

Não me estou a referir ao aspecto das casas, edifícios, ruas, enfim, de tudo aquilo a que vim assistindo nas cidades pós-coloniais, com a degradação generalizada de tudo. Não… Isso não foi importante para mim naquele momento em que cheguei. Estava tudo onde eu sabia que estava.

Facilmente me desloquei pela cidade e fui encontrando tudo aquilo de que me lembrava – as duas casas onde morei, a minha escola, a Câmara Municipal, o edifício do BNU onde o meu pai trabalhou, a piscina municipal onde aprendi a nadar… o lugar onde funcionava a barbearia onde ia cortar o cabelo. A igreja onde fiz a 1ª comunhão, e servia de acólito, com mais uns 5 ou 7, à missa com o Bispo da cidade e província da Zambézia.

A esplanada onde ia com os meus pais beber o meu “whisky” – calma, era só Ginger-Ale, da CANADA-DRY…. Quem não se lembra? … e cujo aperitivo era camarão cozido pequeno, qual amendoins…… Não me perdi nas ruas. Sabia onde estava. Mas tinha “acontecido” algo como que por magia…. Sentia-me o “Gulliver em Lilliput” …. Era tudo muito mais pequenino. {gallery}viagem/20/02{/gallery}O jardim central da cidade, que era imeeenso… bom, é afinal um jardinzito normal…; as casas onde vivi… bastante mais pequenas do que me recordava, assim como os jardins em volta onde capitaneei hostes de corsários, e fiz estradas na terra onde os meus carrinhos – Dinky-Toys – fizeram quilómetros de aventuras…; uma rampa de acesso ao jardim, forrada de pedra, que transformei vezes sem conta em cascata de rio caudaloso, de difícil progressão, subi em três passadas apenas…; as ruas, nas quais com a minha bicicleta – muitas vezes transformada em cavalo – repetia, com as necessárias adaptações pessoais, algumas das aventuras do Cisco Kid – uma das bandas desenhadas do Cavaleiro Andante, estavam mais estreitas. Pois é… afinal fui eu que cresci…

Mas gostei. Gostei de voltar. Felizmente, as já referidas casas onde morei com os meus pais, pertencem ao reduzido número das que mantém as paredes bem coloridas por recentes camadas de tinta.

Um edifício que me trouxe alguma tristeza foi a igreja. É uma ruína completa. Até se tem receio de andar lá dentro, não vá mais um bocado do reboco das paredes cair nos em cima, ou mesmo um pedaço do telhado. Há raízes da grossura dum braço trepando pelo interior da igreja e florescendo em viçosas árvores. As campas que antecedem os degraus da zona onde deveria estar o altar, têm as lápides partidas. Dá a ideia que foi a martelo, melhor dizendo, à marreta, que é mais pesada e parte mais depressa. As paredes, ou o que resta delas, apresentam ainda os vestígios onde estiveram as imagens em pequenos nichos e as marcas das cruzes da via-sacra. A zona onde esteve o altar é, talvez, aquela que me pareceu mais degradada. {gallery}viagem/20/03{/gallery}Eu sei que há neste templo uma carga simbólica muito grande para mim. As minhas recordações eram de um miúdo de dez/onze anos de idade… voltei com 62. É cá uma “pancada”!. Escolham a igreja mais arruinada que existe em Portugal, (que lamentavelmente também as há), mas esta está mil vezes pior. E não é o coração que fala…. são os olhos que vêem.

Mas há pior. As pessoas, isso sim, é importante. Acho que vão sobrevivendo, nesta cidade em que os serviços municipalizados funcionam com inúmeras carências, o saneamento é deficiente, o abastecimento de água apresenta roturas, os serviços de limpeza não existem, ou seja, em que tudo apresenta um aspecto geral de degradação imparável.

Quando chove e aqui chove bem, as ruas tornam-se rios caudalosos de uma mistura de água, terra, lixo… uma massa líquida fétida.

E tenho estado a falar do exterior das casas e edifícios… e como estarão os seus interiores? Mas apesar de tudo isto, as pessoas com quem falei sobre estes problemas da sua cidade, e foram várias, continuam muito afáveis, simpáticas e prestáveis… numa palavra continuam cordialmente zambezianos.

Amanhã… depois da entrega do material, vou para a praia de Zalala. Passo lá o fim-de-semana. Será que as estradas ainda têm a casca do coco a dar alguma consistência para os carros poderem progredir naquele terreno arenoso, já na aproximação da praia? Talvez não. Mas o Índico vai lá estar… imenso como sempre, nesta zona do Canal de Moçambique, concretamente no Banco de Sofala.

Rui Casimiro