Hoje foi um dia muito difícil…

24/6 – Hoje foi um dia muito difícil….Tive de me preparar para a complicada tarefa de conseguir demonstrar às várias autoridades com quem me iria reunir no dia de hoje, que a Escola Primária Completa de Quelimane não reunia as condições mínimas para receber o material escolar que eu tinha trazido de Portugal. Tudo, naquela escola, está em falta, conforme vos descrevi no relato anterior.

E durante a manhã pude confirmar aquilo que a minha imaginação já desenhara. Uma sala de aula cheia de alunos, sentados no chão, alguns reclinados apoiados num cotovelo, para, assim, conseguirem escrever nos seus cadernos, as informações que o professor que deambulava na frente do quadro, dum lado para o outro, lhes ia transmitindo. Foi uma visão perturbante que só reforçou a minha posição.

Vivemos num mundo de extremos… basta pensarmos em todas as condições postas à disposição das nossas crianças… e que muitas vezes são desaproveitadas por estas.

A primeira reunião foi com a Directora da Escola, depois com um Director para a Educação a nível da cidade, a seguir com o Representante do Governo Central para a cidade de Quelimane e, finalmente, com o Director Provincial para a Educação e Cultura da Província da Zambézia.

A todos, da forma mais diplomática possível, transmiti aquilo que me ia na alma, depois de ter visitado a escola, ou seja, a Escola Primária de Quelimane precisa de tudo menos de computadores. Se até as carteiras e os vidros das janelas são roubados, conforme me informou um dos interlocutores do dia, e sempre impunemente, qual a garantia de que o mesmo não iria acontecer aos computadores?!

E a propósito das carteiras, fiquei ainda a saber que, em uma ou duas das salas de aula ainda restam algumas… ou melhor, ainda não foram roubadas. E então há alunos que, todos os dias, vêm para a escola algumas horas antes do início das aulas para, assim, poderem garantir assento durante o seu dia escolar… inacreditável!

Foram apresentados, contra a minha posição, vários argumentos. Segundo um responsável, existiam milhares (??) de computadores a aguardar instalação nas escolas do interior da Província, guardados em local seguro na cidade e por isso não havia nada a temer, bastava também lá colocar estes.

Também me foi dito para aguardar mais uns dias na cidade, para participar numa reunião em que iriam ser convocados os pais e encarregados de educação, e eu seria a prova de que a sociedade civil deve ser também chamada a contribuir para a reconstrução da escola. Esta reconstrução poderia ter como data limite o mês de Agosto, como aventou outro responsável. A isto respondi, que então nessa altura eu estaria em Quelimane a fazer a entrega do material. Foi ainda sugerida a entrega do material a outra escola de Quelimane com melhores condições.

Mantive-me firme no meu propósito. Tinha trazido o material para a minha antiga escola e era essa que o deveria receber quando as condições o permitissem. E quando lhes disse que estava irredutível nesse propósito, os sorrisos desapareceram, as faces cerraram-se e a despedida foi fria. A distinção de “visita importante” que me acompanhou durante toda a manhã também desapareceu. Senti um ambiente pesado. Nada mais tinha a fazer na cidade. Meti-me à estrada.

Em Maputo, iriei contactar o Ministro da Educação, que soube ter estudado também naquela escola, e ver se desta maneira será possível pôr em marcha um movimento que vise a recuperação da Escola Primária Completa de Quelimane.

Da passagem pela cidade de Quelimane registei alguns detalhes curiosos como: as bicicletas-táxi; o movimento das gentes no cais de embarque para Inhasunge; o ar atento dos guardas dos parques automóveis – o guarda do hotel onde fiquei, empunhava mesmo uma caçadeira, como forma de dissuadir o amigo do alheio….; o saboroso “pulau” acompanhado de uma“matapa” muito bem feita que comi ao almoço, à sombra de frondosas árvores, num local onde em tempos, foi o Meireles – alguns devem saber a quem me refiro; o passante que, após uma informação sobre onde comprar fita reflectora para colocar na traseira do jipe, me aconselhou a levar o carro comigo, contrariando assim a ideia que me ocorreu de o deixar ali e ir a pé, até ao quarteirão seguinte; o estudante que aproveitava a grande abrangência da rede de “wireless” da residência do Presidente quando visita a cidade, para, nos bancos dum jardim contíguo, consultar endereços na “net” e obter assim informação suplementar para os seus estudos; a cerveja fresca 2M (desculpem os fãs da Laurentina) que bebi na esplanada do REFEBA, junto ao rio. {gallery}viagem/21/01{/gallery} Outro assunto. O SPOT. Aquele pequeno aparelho, colocado no tablier do jipe, que permitiu que todos os meus simpáticos seguidores me pudessem acompanhar ao longo dos dias desta grande viagem, muitas vezes pela noite dentro. A todos agradeço a companhia, que embora invisível para mim, me fez sentir menos só.

Quando adquiri o aparelho, chamei a atenção do vendedor para o facto do limite de cobertura dos satélites coincidir com a costa de Moçambique, país que seria o meu destino final. Perante isto, foi-me garantido que não haveria qualquer problema pois teria cobertura total.  Sendo assim, muito estranhei que, na aproximação que fiz a Quelimane, no dia 22, me tenham acompanhado apenas até às 10h30. A partir daí, o sinal não voltou a ser registado, pese embora o aparelho continuasse a piscar “furiosamente”. Ao fim destes quilómetros todos, comecei a perceber quando falta carga nas pilhas….. Algo a corrigir por parte da SPOT, pois terá de haver outra maneira de dar aquela informação.

Amanhã faz 36 anos que Moçambique é independente.  Aconselharam-me a não andar na estrada. Por isso vou ficar por aqui, perto do gigante rio Zambeze…e dar um mergulho, não no rio que tem crocodilos, mas na piscina do “Lodge Cuácua”, na margem Norte esquerda, um agradável estabelecimento hoteleiro, recentemente inaugurado propriedade de um português.

Depois de amanhã regresso à estrada a caminho de Maputo!